Arte Imortal, traçando paralelos.

Arte Imortal, upload feito originalmente por Jackson Carvalho.

Ousar, passa antes de tudo, pelo despreendimento de parecer ser ou não ridículo. Para ousar é necessário preservar a ausência do sentimento de medo que têm as crianças.

A introdução a este artigo em que serei provocador de uma reflexão necessária a nos reposicionarmos em relação aos nossos valôres e a como os valorizamos ou não.

A minha ousadia se restringirá a traçar um paralelo entre dois grandes ousados da nossa história recente. E o farei sem medo de ser ridículo, pois eles também não o foram.

Tratarei de colocar nas linhas que vêm a seguir dois ilustres criativos, que foram contemporâneos em suas trajetórias, tendo o primeiro vivido entre os anos de 1901 e 1966 e teve por batismo o nome de Walter Elias Disney, já o segundo viveu entre os anos de 1909 a 1963, com a alcunha de Vitalino Pereira dos Santos.

Disney, como ficou conhecido mundialmente foi filho de fazendeiros. Sua infância em Marceline no Missouri, foi marcada por maus tratos impostos pelo seu pai, e estes fatos vieram a influenciar muitas de suas atitudes mais adiante.

Aos 16 anos Disney começou a estudar arte, mais tarde veio a ser motorista da Cruz Vermelha. Passou por agência de publicidade, antes de começar a produzir desenhos animados.

Foi golpeado e traído por parceiros comerciais que roubaram projetos e desenhos de sua autoria, porém este fato associado ao surgimento do Gato Félix, o levaram a criar o personagem que lhe deu fama, prestígio e obviamente, se tratando da América, bastante dinheiro.

Esta é a maneira sintética de passarmos a vista sob a trajetória de quem criou o Império Disney World, que fatura bilhões de dólares e ainda hoje motiva milhões de pessoas ao redor do mundo e de todas as idades a visitarem os parques, assistirem os clássicos e consumirem os produtos com a assinatura de seu criador. Tudo isto claro, azeitando de dólares a máquina Disney de fazer fortuna.

Vitalino Pereira, O Mestre Vitalino, como também ficou conhecido mundialmente, nasceu filho de lavradores em Ribeira dos Campos. Começou a modelar bonecos de barro ainda aos 7 anos de idade, com a finalidade de servirem de brinquedos do então menino Vitalino.

Mais tarde, Vitalino passou a acompanhar sua mãe, também ceramista de utensílios domésticos, nas idas a feira de Caruaru, onde passou a comercializar sua arte.

Somente em 1947, o Mestre teve a sua obra reconhecida no sudeste do país, através da iniciativa de convidá-lo a participar no Rio de Janeiro da Exposição de Cerâmica Popular Pernambucana. Dois anos mais tarde a nova arte popular brasileira criada pelo pernambucano, foi exposta no MASP em São Paulo. O Mundo veio a conhecer a impressionante arte de Vitalino no ano de 1955 em Neuchatel na Suiça, através da exposição Arte Primitiva e Moderna Brasileira.

Suas peças estão expostas até hoje no Museu do Louvre em Paris, Na Casa do Pontal e Chácara do Céu, no Rio de Janeiro e no acervo museológico da Universidade Federal do Recife. Sua Casa no Alto do Moura em Caruaru, foi recuperada e se tornou Casa Museu aberta a visitação popular. Diferentemente de Disney, Vitalino não fez riqueza, não formou império e não gerou para si e para seus decendentes bilhões de dólares, sequer de reais.

Mas o que fizeram esses dois criativos? Disney, em uma época em que era embrionário o imperialismo americano, provocou em todos um mergulho na fantasia e na diversão articulada e animada de um camundongo a quem batizou de Mickey Mouse. Sem profundidade histórica, sem maiores pretensões, porém o advento se tornou numa fábula moderna, inovadora e que se associou de forma apropriativa de novas tecnologias da época, tais como o cinema falado e logo em seguida em cores. Seduziu platéias ao redor do mundo e se tornou de maneira estruturada em uma companhia rentável e também fabulosa.

Já Vitalino, retratou de maneira rica e aprofundada a forma de vida de um povo, de uma sociedade esquecida e desconhecida, modelando em suas formas os folguedos, os costumes, as celebrações pagãs e religiosas, a simplicidade da caça e a tristeza dolorida do retirante. A alegria da festa junina e o encanto da ciranda. O casamento matuto e a pega de boi. Criou um traço único e inédito. Não cursou faculdade de arte nem fez conservatório, mas criou uma forma de arte figurativa única e como se não bastasse ainda aprendeu autodidaticamente a tocar o instrumento de sopro com acordes únicos, segundo estudos do conservatório da Orquestra Filarmônica de Berlim, o Pífano. E foi através da música e da capacidade ímpar de suas mãos com dedos ágeis de modelar o viver dos nordestinos, que O mestre Vitalino, no ambiente delimitado entre o Alto do Moura e a Feira de Caruaru se projetou para o mundo.

Pela riqueza e profundidade de Vitalino, não merecia ele e seus decendentes terem seu império? A resposta mais imediata é que sim, mas entre o ideal e o real, existem milhares de variáveis. Porém se quisermos sermos provocadores, podemos nos perguntar se não podemos de forma reparadora e louvável, defendermos a nossa Vitalinolândia, ou o Mundo de Vitalino, num paralelo com a Disney World. Se observarmos como até hoje são seduzidos e encantados os turistas que por nossa cidade circulam, podemos sim imaginar um imenso parque chamado Vitalinolândia. Lá poderíamos ter salas exibindo documentários sobre vitalino, Peças gigantes criadas pelo mestre, montanhas russas passando por esculturas gigantes, réplicas de suas peças confeccionadas na hora por jovens artesãos, e ao centro a Casa Museu do Mestre, onde diariamente sua passagem por nós seja celebrada. Tudo isto obviamente pago, cobrado daqueles que podem por aqui passem e possam pagar por isto. Por exemplo, cobrar para tirar fotos de turistas ao lado de seu filho, Severino Vitalino. Cobrar no parque o preço que as lojas de aeroporto cobram pelas peças dos discípulos do Mestre. Já vi loja de aeroporto cobrando por um trio de forrozeiros feito no Alto do Moura 85 Dólares americanos.

Porquê não? Esta provocação corre o risco de cair no ridículo e morrer prematuramente como ocorreu com nosso Mestre. Pode ser uma idéia que se imortalize pela pobreza em que se torne. Pode ser que crie um pequeno império… Para quem? Não me interessa, porém, nossos valores culturais também devem se preocupar em se tornarem produtos de mercado, distribuirem renda e gerar conforto e riqueza. Que mal há nisso? Ao meu ver nenhum, porém devo lembrar que o sucesso culturalmente em nossa sociedade é punitivo. Por inveja, por interesses contrários de minorias oligárquicas e centralizadoras de poder e riqueza.

Quebrando a hegemonia dessa forma arcaica de pensar fica a pergunta: Vitalino e Disney, traços paralelos, ou possibilidades convergentes? Gostaria de obter a resposta enquanto ainda estiver por aqui, pois diferentemente da arte, não serei imortal.

Caruaru – Uma Feliz Cidade



Chicletando, upload feito originalmente por Jackson Carvalho.

Caruaru é um destes poucos lugares pitorescos ao redor do Mundo.

Sua gente, sua cultura, seus folguedos, seu artesanato, sua arte, seus costumes, sua energia, sua localização geográfica, seus causos, sua pujança naturalmente vocacionada para ser um grande entreposto comercial. Tudo isso faz de Caruaru um lugar diferente.

Há 20 anos atrás aqui chegava eu. E ao longo de todos esses anos, tive a felicidade de vivenciar tantos fatos, hoje já históricos.

Como cartão de visita fui brindado poucos dias após minha chegada no país de Caruaru, com a transferência da sua centenária feira popular, que deixava o centro da cidade e se instalava em um parque construído para essa finalidade específica. Com um detalhe curioso: nenhuma manifestação contrária, nenhum tumulto, tudo de forma ordeira e pacífica como manda a civilidade.

Pouco mais a frente, presenciava o então prefeito da cidade à época, José Queiroz de Lima, em seu segundo mandato, inaugurar sob um belíssimo pórtico formado por uma ostentosa sanfona colorida, a Vila do Forró e o Pátio de Eventos, abrindo os festejos juninos daquele ano.

Há pouco mais de 4 anos, tive a honra de não apenas testemunhar a história de Caruaru, como me integrar a ela, quando das comemorações pelos 150 anos de emancipação política do município. Na ocasião, tive a primazia de vencer a concorrência para a criação do Mascote e da Marca dos Sesquicentenário da Cidade.

E foi neste período que mergulhei mais profundamente nas origens de Caruaru. Curiosamente descobri que Caruaru é a simbíose resultante de um inusitado triedro formado pelo Barro, pelo Forró e pela Feira. São estes três elementos que dão forma as suas características e oportunizam aqueles que deste composto sabem tirar vantagens, ou simplesmente dele geram sua sobrevivência. Foi sobre este triedro que o Mestre Maior Vitalino erigiu a sua arte e se tornou nosso maior herói interno. Assim o chamei, por identificar que Vitalino foi quem mais contribuiu para a projeção mundial de Caruaru, sem ter que de sua terra sair.

Foi com suas mãos, usando o barro do nosso solo, comercializando na nossa feira e com o pífano tocando a nossa música que Vitalino se imortalizou e provocou um olhar diferenciado do mundo para nós.

No último sábado, dia 18 de junho de 2011, mais uma vez testemunhando e também registrando a história de Caruaru, fiquei por demais emocionado ao sobrevoar de helicóptero o Pátio de Eventos Luiz “Lua” Gonzaga, ao ver a multidão que esta foto ilustra, mas muito além disto, por sentir a pulsação de uma cidade que se transforma, que se exibe, que se diferencia com um festejo junino que só aqui existe, e que só aqui está presente no DNA do caruaruense. Por sentir a energia de um povo guerreiro, forte e batalhador que vai às ruas, que demonstra seu amor por este triângulo fe Feliz Cidade que tem seu Barro, Seu Forró e sua Feira, feira essa que por si só é uma imensa colcha de retalho multicultural, multicolorida e multi facetada.

A emoção de ver cenas como estas, e por saber que o brilho, a vibração e a pulsação que emana desta gente, garantem a Caruaru um lugar destacado no cenário sócio, político e cultural do nosso país.

Viva Caruaru. Capital do Forró, Capital do Agreste. Viva Caruaru, e que seja sempre um exemplo de Feliz Cidade.

Um Segundo eternizado.


Grandes mestres da fotografia como Henry Cartier Bresson, Araquém Alcantara, Robert Capa e Alexander Rodtchenko, nos ensinam com o conjunto das suas brilhantes obras, o quanto um único segundo pode se eternizar para a história. A fotografia tem esse poder. Outras mídias também registram o transcorrer dos fatos, como o rádio, a televisão e mais contemporaneamente a internet, desempenham o papel de registro, porem é a fotografia que registra a emoção, a alegria, a tristeza, a dor, e outros tantos sentimentos congelados em uma fração ínfima de tempo.

Ao longo da história, a busca pela reprodução da imagem sempre foi perseguida pelo homem.

Ilustrar fatos corriqueiros do dia a dia, ou acontecimentos importantes, desde os primórdios tem sido uma necessidade. Com a evolução tecnológica, a fotografia se tornou cada vez mais intensa e interativa com o homem moderno. Se vivemos a era da informação, ela é mais do que nunca ilustrada pela fotografia, presente e indispensável nas redes sociais e na necessidade que hoje as pessoas têm de se projetar, de se auto afirmarem, mesmo que incoscientemente através da fotografia.

A fotografia deixou de ser apenas uma arte restrita a poucos, e invadiu o contidiano, através de cameras digitais e de celulares. Hoje a fotografia continua sendo uma arte, e como todas elas, necessita de técnica, estrutura, equipamentos e aprimoramento profissional. Porém a fotografia despropositada, despojada e irreverente se esparrama pela grande rede, alimentando orkut, facebook, flickr, instagram e outras tantas redes sociais. É através desta ampliação de base de usuários que a fotografia vai escrevendo com luz a sua maior vocação: eternizar os segundos para a história da humanidade.

Coluna Sobre fotografia publicada na Revista Conteúdo, Edição número 1 – Ano I