Desfolclorizando o noticiário



Ângulo Diferente, upload feito originalmente por Jackson Carvalho.

Todos os dias, ao longo de todas as semanas, todos os meses, de todos os anos, nos acostumamos – mal – a sermos informados nos noticiários de escândalos, em geral contra os cofres públicos.

Outro mal costume que passou a ser comum, é de que todos os nossos males são atribuídos “aquele povo de Brasília” .

Pois bem. Vamos ao questionamento. Alguém já ouviu falar de uma senadora chamada Mula sem Cabeça? ou de um deputado federal que atende pelo nome de Saci Pererê? Ou ainda algum ministro batizado pelo nome de Curupira?

Não. Nenhuma dessas folclóricas figuras faz parte dos poderes institucionais constituídos em nosso Estado. As pessoas que costumamos chamar de “aquele povo de Brasília”, sequer de Brasília são, e não são nada mais nada menos que uma amostragem de quem nós realmente somos. São pessoas comuns e iguais a cada um de nós que por falta de educação e de seriedade como povo, joga lixo na rua através da janela do carro. Igual a cada um de nós que paga propina ao guarda rodoviário para não ser multado por alguma irregularidade. Igual a cada um que sempre passa dois orçamentos, um com nota fiscal e outro SEM nota fiscal. São todos iguais aquele funcionário que pede pra ser admitido por 3 meses sem registro para receber o seguro desemprego, ou aquele outro que pede um atestado médico para justificar uma falta injustificável no trabalho. São todos educados com o hábito de avançar o sinal, parar na faixa do pedestre, ou dar aquela carreirinha e atravessar a rua com o sinal fechado. No país em que todos acham normal estas práticas, também é normal receber R$ 30.000,00 para conceder um voto na câmara dos deputados de forma favorável a um projeto do governo. Ou ainda é muito normal ter uma empresa fantasma para participar de licitações. Ah! também é normal dar um laudo técnico afirmando que o material da construção de uma rodovia está correto, quando na verdade não está. Sem falar que, sendo gestor de qualquer valor público, deve considerar que: “Dinheiro do Governo não tem dono”. Ora, realmente não tem, e porquê não tem? por que a população deste país é conivente, é cúmplice, aprova integralmente este tipo de conduta.

A esta altura deste texto, já deve ter alguém indignado. Com a situação? não, com o texto e com o autor. Pois bem. Respondamos rapidinho: Quantas pessoas neste ano eleitoral vão votar de forma consciente? e quantas irão votar por uma conveniência no mínimo questionável para ser educado? pois bem, aí está a cumplicidade. Se não existe uma seleção criteriosa, como irá haver um comportamento adequado no exercício da função eletiva? Enquanto este país não priorizar a educação como eixo fundamental estratégico para o seu desenvolvimento como nação, iremos viver na ilusão de sexta maior economia do mundo, com bolsões de miséria e falta de educação.

Esta semana foi divulgado os resultados da apuração do IDEB – Índice de Desenvolvimento da Educação Básica – e estamos com 15 anos de atraso em relação aos países desenvolvidos. Estamos atrás de muitos países da américa latina. Pois bem, é com esta falsa e medíocre imagem de sexta maior economia do mundo, que patinamos no desenvolvimento como povo. O nosso IDH – Índice de Desenvolvimento Humano – do Brasil, ocupa a posição de número 84. Estamos atrás da Líbia, aquele país africano que vivia sob a ditadura de Kadafi. Estamos atrás de Gana.
Este abismo que nos separa entre a realidade do nosso povo e a nossa economia tão alardeada através da mídia, é também fruto desta nossa ignorância coletiva. Precisamos deixar de pose e entender que o dinheiro público tem dono sim, e que os bilhões que escorrem pelas nossas “Cachoeiras” e abastecem os lagos de “Brasília”, deveriam sim, abastecer um sistema educacional eficiente para que nossos netos e bisnetos desfrutem de um país que para nós que estamos na faixa etária dos quarenta, será apenas a triste constatação de uma gigantesca e descomunal Cantina Italiana, onde à mesa, sempre veremos serem servidas amargas e não palatáveis pizzas.

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